Fim de ano e é hora de fazer um balanço sobre o que passou em 2022 e de planejar o que vem aí em 2023. Então, o CORREIO convidou alguns artistas baianos para relembrar séries, filmes e livros que marcaram o ano deles e que eles recomendam aos leitores. Também falaram sobre discos, músicas ou intérpretes que eles sugerem para o próximo ano. Inicialmente, eles deveriam indicar obras lançadas neste ano, mas, diante de alguns apelos e bons argumentos, decidimos liberar e permitir obras mais antigas, inclusive clássicos. É como diz a escritora Clarissa Macedo, uma das participantes: “A listinha de indicações de filme, série, artista e livro que marcaram meu 2022 não é de coisas do ano, mas, nem por isso, anacrônicas, pois quando se trata de arte, a atemporalidade é chave”.
Houve também quem preferisse indicar a obra de um artista de maneira mais geral, como a própria Clarissa, que falou sobre Gal Costa, e Fernando Guerreiro, que destacou a “evolução” de Luedji Luna. Agora, aproveite pra dar um upgrade na sua biblioteca e pra atualizar sua playlist, com a indicação desses artistas baianos. E no site do CORREIO, tem mais participações: a atriz e cantora Ana Mametto e a escritora e colunista do CORREIO Kátia Borges.
Ronei Jorge, cantor e compositor Disco: Alto da Maravilha, de Russo Passapusso e Antonio Carlos & Jocafi. Faz faz jus a uma dupla super hitmaker. Os caras fizeram música pop brasileira em alto nível e acho que Russo é o cara que segura esse bastão com total dignidade. O disco mostra que eles têm uma relação muito profunda musical.
Filme: Vi este ano O Abraço da Serpente (2015), sobre uma expedição em que um cara precisa se curar na Amazônia. Bem misterioso e muito bonito, tá no Prime Video. Livro: O Pai Goriot, de Balzac. É mais velho que não sei o quê, né? (risos). Um livraço, estudo da humanidade, de como o comportamento humano, o poder descritivo impressionante… um mestre, né?!
Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Matos e diretor de teatro Filme: Marte Um, que é emocionante, de uma delicadeza e precisão cirúrgica. E, como bairrista que sou, não posso deixar de falar de Na Rédea Curta, que adoro aquela dupla! Aquilo ali é meu humor, vem de uma escola de muitos anos em Salvador. Fiquei muito feliz de ver aqueles baianos todos no filme.
Série: Wandinha é campeã porque é de Tim Burton e ele é muito legal! Adoro tudo que ele faz.
Artista: Luedji Luna, que tá tendo evolução fenomenal, se destaca com elegância, precisão, lirismo… uma coisa autoral. E Baianasystem, que, para mim, ganha todos os anos. Sou fã de carteirinha, adoro tudo, são um farol completo, muitos anos na frente. Livro: O Estudo Sobre o Fim: Bangue Bangue à Paulista, de Paulo Fábrio, que me impactou muito. Retrata a questão das mazelas, sociais e o lado obscuro da sociedade de forma brilhante.
Marilia Moreira, jornalista, coordenadora no Instituto AzMina Filme: Vi na TV Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, mas a experiência é essencialmente cinematográfica. Comecei o filme achando tudo uma grande loucura e que não faria sentido. Mas terminei chorando de soluçar. Mistura muito gêneros, inclusive ação, mas é realmente uma lição de vida entre mãe e filha. Paloma é nacional, está no Globoplay e fala sobre sonhos. E em 2022, fomos convocados a poder sonhar um mundo possível. Série: Não gosto de me envolver, viciar e esperar temporadas (risos) Disco: Indigo Borboleta Anil, de Liniker. Já era apaixonada apenas escutando e depois fiquei ainda mais apaixonada, com a experiência de ver na Concha o show, com homenagem a Letieres Leite. Álbum lindíssimo, que confirma que este foi o ano da vida de Liniker!
Livro: Tudo sobre o Amor, de Bell Hooks. Todos os livros dela são sempre revelações, ela tem leitura muito particular da sociedade e das relações. Mas esse me tocou em um lugar íntimo, em que estava pensando muito sobre como construir uma sociedade com outros pilares.
Ricardo Fagundes, ator Filme : Marte Um. Tem roteiro, direção e interpretações verdadeiras e profundas. Nada nele é “maquiado” e sim posto com elegância e coragem. Ao assistir, me senti como que entrando num labirinto. A cada cena, temos múltiplas possibilidades de leitura através de personagens profundos e humanos.
Série : This is us faz a gente levantar do assento e voar para dentro de nós mesmos através das histórias contadas. Personagens complexos e sem determinismo de ser bom ou mau. E sim num “somos o que somos na fluidez dos dias”. Para quem gosta de psicanálise, é um prato cheio no que diz respeito às relações familiares e seus desdobramentos desde a fase embrionária.
Artista: Liniker. Cada dia, esta artista tem tocado mais meu coração através de sua verdade ao cantar e no modo como constrói seus discos. Nada colocado na trilha dela é à toa. Tudo tem um sentido de estar ali. Indico Indigo, Borboleta Anil. Foi na frente de seu palco que conheci o amor de minha vida.
Livro : Esferas da Insurreição – Notas para uma vida não cafetinada, de Suely Rolnik. Um mergulho para dentro de si e sua relação com o mundo. De forma bem humorada e pontiaguda, Rolnik nos saculeja para existência e insurreição de nossa subjetividade.
Tiago Almassy, ator Filme: Não! Não Olhe! Pela originalidade que adentra a ficção científica, trazendo uma crítica à cultura do espetáculo a partir de uma perspectiva racializada, misturando horror, faroeste e alienígenas com uma óbvia referência a Spielberg
Série: Ruptura (Severance). Pela maneira criativa que aborda as relações abusivas de trabalho da contemporaneidade – que mais priorizam o desempenho dos empregados em detrimento da saúde mental de todos eles – trazendo um “melodrama de escritório” que se constrói na abstração proporcionada pelas novas tecnologias que só favorecem o capital
Música: Renaissance (Beyoncé). Uma grande homenagem à era disco e aos ícones da cultura LGBTQIAP+ e negra norte americana. Um álbum que é quase infinito em suas referências, que cruza o universo numa verdadeira jornada hedonística e que nos lembra o quão importante é produzir canções que nos inspirem a dançar e a nos sentir bem com nós mesmos
Livro: A Vestida: Contos, de Eliana Alves Cruz. Vencedor do Jabuti, o livro carrega uma identidade extremamente autoral na forma de construir seus diversos contos e trazem os holofotes para o talento de Eliana Alves Cruz, que sempre foi uma exímia contadora de histórias
Clarissa Macedo, escritora, autora de A Casa Mais Alta do Teu Coração
Filme: Fogo Sagrado, de Jane Campion, estrelado pela deusa Kate Winslet e pelo não menos divinal Harvey Keitel, uma mescla de drama com toques de comédia que dá intensas reviravoltas ao longo da trama, com diálogos bem construídos, trilha sonora arguta e uma narrativa poderosa.
Artista: Gal Costa. Neste, que foi o ano em que ela nos deixou, ouvi muito a cantora, sobretudo os discos A Pele do Futuro e Estratosférica, ambos ao vivo, com versões, sucessos e músicas novas, que mostraram uma intérprete diversa e plena, para quem o tempo só conferiu mais brilho e vigor.
Série: Outlander (Star+) me arrebatou irremediavelmente. Unindo o clássico par romance-aventura, a produção narra, de um jeito muito particular, o amor de Jamie e Claire, atravessados pela História, sobretudo a do Reino Unido e dos EUA, e pelo tempo, sem redundância.
Livro: Arqueología Amorosa, da uruguaia Cristina Peri Rossi. Me acompanhou, e ainda cá está, em muitos momentos do meu ano. Política, História, amor e morte são alguns dos temas trabalhados pela autora, cuja escrita conjuga tema e lapidação da palavra de modo magistral.

